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"Minha experiência com o Avatar" Um relato de Ana Lúcia Sayeg

9 de out.
5 min de leitura

Quando penso na experiência que vivi, percebo que seria impossível resumi-la apenas aos exercícios que fiz. Eles foram importantes, mas o que realmente aconteceu foi algo muito mais profundo: comecei a observar a mim mesma de uma maneira que eu não costumava fazer.

Passei grande parte da minha vida procurando compreender, estudar, analisar, encontrar explicações e respostas. Minha formação, minha profissão e talvez até minha própria personalidade me ensinaram a confiar muito no pensamento analítico, no que pode ser demonstrado, explicado, comprovado e organizado.

E talvez um dos meus maiores desafios durante esse processo tenha sido justamente sair desse lugar.

Percebi como é difícil abandonar, mesmo que por alguns instantes, a necessidade de compreender intelectualmente tudo aquilo que estamos vivendo e permitir que exista também aquilo que simplesmente se experiencia.

Aquilo que inspira.

Aquilo que não necessariamente é palpável.

Aquilo que não precisa imediatamente de uma explicação.

Em alguns momentos, minha mente procurava entender o exercício enquanto outra parte de mim começava simplesmente a vivê-lo.

E foi nesse espaço que muitas coisas começaram a acontecer.

 

*****

 

Passei a enxergar minhas crenças não apenas como pensamentos que possuo, mas como estruturas pelas quais interpreto pessoas, acontecimentos e até a mim mesma.

Algumas dessas crenças me acompanharam durante tantos anos que eu já não conseguia diferenciá-las daquilo que imaginava ser a realidade.

Percebi também quantos julgamentos construímos sem perceber.

Julgamos pessoas.

Julgamos acontecimentos.

Julgamos comportamentos.

E, talvez de maneira ainda mais intensa, julgamos a nós mesmos.

Ao realizar os exercícios de criação e descriação, comecei a experimentar a possibilidade de olhar para essas construções sem precisar necessariamente lutar contra elas.

 

Foi muito marcante perceber que algo pode ter sido criado por mim sem que isso signifique culpa.

Significa responsabilidade.

E considero essa diferença extraordinária.

Responsabilidade passou a ter para mim um significado diferente.

Não como peso. Não como punição.

Mas como liberdade.

Porque, quando compreendo que participo das minhas escolhas, dos meus pensamentos, das minhas interpretações e da maneira como reajo ao mundo, também percebo que posso escolher diferente.

Talvez uma das maiores descobertas tenha sido perceber o quanto somos responsáveis pela consciência que levamos para cada experiência.

Eu posso não controlar aquilo que o outro faz.

Posso não controlar o que acontece ao meu redor.

Mas posso começar a perceber o que eu crio diante daquilo.

E isso muda profundamente a maneira de estar no mundo.

 

*****

 

Outro aprendizado muito importante foi sobre individualização.

Compreender que cada pessoa possui seu próprio caminho, suas próprias escolhas, suas próprias crenças e seu próprio processo de consciência parece simples quando dito em palavras.

Mas viver isso é muito mais difícil.

Principalmente quando amamos alguém.

Tenho naturalmente muita compaixão pelas pessoas e sempre tive uma enorme vontade de ajudar. Mas comecei a perceber uma diferença muito sutil entre compaixão e a necessidade de fazer o outro se sentir bem.

Às vezes queremos retirar a dor de alguém porque nós mesmos não suportamos vê-lo sofrer.

Queremos facilitar. Queremos proteger. Queremos resolver.

Queremos que aquela pessoa fique bem.

 

Mas comecei a me perguntar: será que, ao tentar fazer alguém se sentir bem a qualquer custo, eu não posso também estar impedindo que essa pessoa descubra alguma coisa que precisa descobrir por si mesma?

Essa pergunta ficou muito forte dentro de mim.

Talvez compaixão não seja retirar do outro todas as dificuldades.

Talvez seja conseguir permanecer presente, amorosa e respeitosa, sem roubar dele a oportunidade de crescer.

Para mim, isso ainda é um aprendizado. E talvez seja um dos maiores.

 

*****

 

Durante os exercícios, também pude revisitar situações relacionadas à confiança, às relações, às decepções e aos julgamentos que fui construindo ao longo da vida.

Percebi, por exemplo, que uma experiência dolorosa pode criar uma decisão interna de proteção.

Quando nos decepcionamos com alguém, podemos decidir que nunca mais seremos ingênuos.

Mas, levando essa decisão ao extremo, poderíamos acabar desconfiando de todas as pessoas.

E então compreendi algo muito importante: proteger-me não precisa significar perder minha espontaneidade, minha capacidade de acreditar nas pessoas ou minha capacidade de amar.

Posso continuar acreditando no bem e, ao mesmo tempo, permitir que a confiança seja construída pela coerência, pela retidão e pelo comportamento ao longo do tempo.

Isso trouxe para mim uma sensação muito grande de liberdade.

 

*****

 

Nos trabalhos relacionados aos conflitos e aos ataques, outra compreensão se tornou importante: perceber como podemos ficar presos às polaridades.

Certo e errado. Atacante e atacado. Culpado e inocente. Amigo e inimigo.

Quando estamos dentro dessas polaridades, parece quase impossível observar a estrutura inteira do conflito.

 

Trabalhar sentimentos como culpa, ódio, injustiça, resistência, medo e necessidade de defesa permitiu que eu começasse a observar algumas situações de uma perspectiva mais ampla.

Não significa apagar diferenças ou negar responsabilidades.

Significa apenas não permitir que o conflito determine completamente o lugar de onde eu observo a vida.

 

*****

 

Também experimentei algo muito bonito quando trabalhei minha relação com meu próprio corpo.

Ao perceber determinadas condições, marcas, cicatrizes ou aspectos que eu carregava como problemas, pude experimentar primeiro a descriação dessas identidades e, depois, a possibilidade de criar novamente.

 

Criar saúde. Criar vitalidade.

Criar um corpo que não precisava ser definido apenas pelas histórias que já havia vivido.

 

Independentemente da forma como cada pessoa possa interpretar esse exercício, para mim ele teve um significado muito especial: perceber que não preciso permanecer identificada para sempre com aquilo que aconteceu comigo.

Posso continuar criando.

Talvez seja isso que mais tenha me impressionado em toda essa experiência.

A dimensão da responsabilidade sobre aquilo que criamos.

A responsabilidade pelas nossas escolhas.

Pelos nossos pensamentos. Pelos nossos julgamentos.

Pelas identidades que assumimos.

E, ao mesmo tempo, a descoberta de que responsabilidade não precisa nos aprisionar.

Ela pode nos devolver a possibilidade de escolha.

 

Ainda sinto que estou apenas começando a compreender tudo isso.

Há muita coisa que preciso digerir.

 

Não quero transformar essa experiência simplesmente em mais um conhecimento intelectual acumulado. Quero permitir que ela amadureça dentro de mim.

 

Quero observar como essas compreensões aparecerão nas minhas relações, no meu trabalho, nas minhas escolhas e principalmente na maneira como me posiciono diante das pessoas e do mundo.

Sei que ainda tenho muito a aprender.

E talvez algumas dessas respostas estejam nos próximos passos, no Master e, futuramente, no Wizard, experiências que pretendo realizar quando sentir que aquilo que vivi agora já encontrou um lugar mais firme dentro de mim.

 

Não tenho pressa.

 

Quero chegar aos próximos níveis não apenas sabendo mais, mas tendo incorporado melhor aquilo que já experimentei.

Existe também em mim um desejo de levar alguma coisa disso para além da minha própria vida.

Para o mundo.

Mas hoje percebo que, antes de querer transformar o mundo, talvez seja necessário aprender cada vez mais profundamente a assumir responsabilidade pelo universo que criamos dentro de nós.

 

E talvez seja justamente daí que qualquer transformação verdadeira possa começar.

Saio dessa experiência não com a sensação de que encontrei todas as respostas.

Ao contrário. Saio com perguntas melhores.

 

Com mais consciência sobre aquilo que penso.

Com mais cuidado sobre aquilo que julgo.

Com mais responsabilidade sobre aquilo que escolho.

 

E com uma compreensão de compaixão que ainda estou aprendendo a viver: estar ao lado do outro sem necessariamente decidir por ele o que seria melhor para sua caminhada.

 

Talvez, para mim, esse seja o início de uma nova maneira de olhar.

Para mim mesma. Para o outro. E para o mundo.

 

E se existe algo que gostaria que Harry Palmer soubesse sobre a minha experiência, é que os exercícios não terminaram quando acabaram as atividades.

Eles continuam acontecendo dentro de mim.

E acredito que ainda continuarão por muito tempo. Ana Lúcia Sayeg

 
 
 

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